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Residentes multiprofissionais realizam pesquisa sobre suicídio

22/05/2018

 O suicídio é a segunda causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos e tem crescido exponencialmente na última década. O Rio Grande do Sul recebe uma atenção especial, pois, é o estado brasileiro com o maior número de casos. Segundo dados do Ministério da Saúde, a região Sul apresenta 23% dos casos de suicídio do país, embora responda por 14% da população brasileira.

O Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) de Passo Fundo é um hospital geral, que atende casos da cidade de Passo Fundo e de toda 6ª Região de Saúde, composta por 62 municípios. O primeiro atendimento ocorre na Emergência, onde o número de casos de tentativa de suicídio despertou o interesse da equipe de Residentes Multiprofissionais em Saúde do Idoso, Farmacêutica Ana Claudia Monteiro Braga, Enfermeiro Daniel Rodrigues, Nutricionista Gabriele da Graça Botesini e a Enfermeira Preceptora Maristela Rodrigues, que integram o Programa de Residência Multiprofissional Integrada em Saúde do Idoso e Atenção ao Câncer em parceria com a Universidade de Passo Fundo e a Prefeitura Municipal de Passo Fundo.

Sabendo da importância do atendimento aos casos de suicídio e da responsabilidade dos profissionais da saúde nesse contexto, atentando para os números preocupantes do estado, os residentes desenvolveram um estudo, onde identificaram o número de pacientes atendidos na Emergência em decorrência de tentativa de suicídio no período de janeiro de 2017 a abril de 2018, bem como, a forma da tentativa, as épocas em que ocorreram os casos, o sexo e a faixa etária atingidas e as principais sequelas identificadas nos pacientes.

Um panorama sobre o suicídio

A abordagem do risco de suicídio e sua prevenção são de responsabilidade de todos os profissionais de saúde, não importando em qual nível de atenção trabalhem. Dados da literatura mostram que mesmo com índices alarmantes entre os jovens, a incidência de suicídio em pessoas com 70 anos ou mais é elevada. Em geral, homens cometem mais suicídio do que as mulheres, embora estas apresentem maior número de tentativas.

Um estudo internacional analisou casos de suicídio de seis países e evidenciou que em 66% dos casos os indivíduos comunicaram claramente a intenção de se suicidar a familiares próximos ou amigos, 77% deles foram atendidos em serviços de Atenção Primária na semana anterior ao ato e 45% deles foram atendidos por profissionais da Atenção Primária no mês anterior a sua morte, sendo 19% destes, com um profissional de saúde mental. “Tais dados reforçam a ideia de que, a tentativa de suicídio pode ser prevenida e evitada. A prevenção do suicídio abrange desde a oferta das condições mais adequadas para o atendimento e tratamento efetivo das pessoas em sofrimento psíquico até o controle ambiental dos fatores de risco”, atentam os residentes, salientando ainda que, conhecer as situações que atuam como fatores de risco para o suicídio podem auxiliar os profissionais de saúde na identificação de situações de risco e de crise.

Segundo as pesquisas, dentre estes fatores de risco, estão a depressão, o transtorno afetivo bipolar, o abuso/dependência de álcool e outras drogas, a esquizofrenia, os transtornos de personalidade, a história familiar de doença mental, a falta de tratamento ativo e continuado em saúde mental, a ideação ou plano suicida, o histórico de suicídio familiar, as tentativas pregressas, a instabilidade familiar, as datas importantes, o desemprego, entre outros. Tais fatores podem servir de alerta e reforçar a atenção que deve ser dada a essas pessoas.

Realidade local

Os residentes multiprofissionais analisaram os dados dos atendimentos na Emergência do HSVP e identificaram 22 atendimentos em 2017 e oito até o fim de abril de 2018, uma média de 1,875 atendimentos por mês. Dos 30 casos atendidos desde janeiro de 2017, 27 pacientes foram atendidos pela primeira vez e um tentou suicídio três vezes no mesmo ano, sendo as tentativas realizadas por 14 homens e 14 mulheres. “Estratificando a faixa etária em três grandes grupos, jovens até 19 anos, adultos de 20 a 59 anos e idosos acima de 60 anos, a prevalência da tentativa de suicídio foi maior nos pacientes adultos, com 82%. Dentro da faixa etária com maior número de tentativas, observamos que 20,83% dos casos ocorreram em indivíduos entre 20 e 29 anos e 79,17% entre os que estavam na faixa de 30 a 59 anos, mostrando uma individualidade da população quando comparada com o panorama mundial, que mostra a população jovem como a maior vítima do suicídio”, apontam os profissionais, alertando que os dados, “permitem abrir os olhos para as necessidades e a forma de vida dos adultos, que são cobrados em todos os âmbitos, profissional e pessoal, para darem sempre o seu melhor, deixando de lado muitas vezes a saúde mental”.
Ainda, foi observado no estudo que, dos 30 registros identificados, seis evoluíram para óbito, sendo que a efetividade do ato foi mais frequente entre os homens 66%, 15 saíram do hospital com sequelas e um permanece internado com sequelas graves. Dos 28 pacientes atendidos, 18 tinham problemas/distúrbios psicológicos prévios, sete não informaram e apenas três relatavam não ter problemas psicológicos antes do acontecimento. Estes dados condizem com outros estudos que apontam que, cerca de 90% dos indivíduos que puseram fim às suas vidas cometendo suicídio tinham algum transtorno mental e que 60% deles estavam deprimidos.
Nos casos analisados pelos residentes, os problemas identificados nos pacientes foram depressão, ansiedade, transtorno bipolar e transtornos de humor e o estudo mostrou também que 26% dos pacientes faziam uso de medicamentos para essas morbidades. “Este dado é muito relevante, pois, faz um alerta relacionando o fato de que somente a terapia medicamentosa não é suficiente para ajudar o paciente a superar os problemas e dificuldades enfrentados durante as crises, sendo o acompanhamento psicológico e o apoio dos amigos e familiares de extrema importância”.

Sobre o perfil dos pacientes estudados, a maioria era de raça branca 80% e procedentes de Passo Fundo 76,6%. As tentativas ocorreram em todos os dias da semana, entretanto, fins de semana foram as datas mais frequentes 56,6% e 10% das tentativas ocorreram durante feriados festivos (Páscoa e Ano Novo). “Essas informações são importantes, visto que, tanto fins de semana quanto feriados são momentos em que as famílias se reúnem e os vínculos afetivos são reforçados. É fundamental despender um cuidado maior com aquele familiar ou amigo que tem algum problema psicológico, especialmente nessas ocasiões”, alertam os residentes, completando ainda que, fugindo da regra apontada por estudos internacionais, que fala que a maioria dos suicídios acontecem de manhã, o estudo mostrou que os casos aconteceram no turno da tarde 46,6%, seguido pelo turno da noite 33.3% e por último pela manhã 20%, sendo o início da primavera a época com o maior número de casos.

Após a observação destes dados os residentes salientam que a saúde mental deve ser tratada como prioridade em todas os níveis de complexidade do sistema de saúde. “Tanto o hospital quanto a equipe estão preparados para fazer o acolhimento e acompanhamento dos pacientes que se encontram nessa situação. Além da atenção hospitalar, o cuidado se estende após a alta, através de canais como o Centro de Valorização da Vida (CVV), acessível pelo número 188, o Centro de Informações Toxicológicas (CIT), acessível pelo número 0800 721 3000 e através da Rede Básica de Saúde, na forma de Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), disponível pelo telefone 3314-7721”, orientam, concluindo que “o suicídio é um fato observado em nossa sociedade, o qual pode ser evitado através de medidas interventivas como ligações, conversas, presença de familiares e amigos, apoio emocional, acompanhamento psicológico e por vezes psiquiátrico, sendo a Residência Multiprofissional um elo de cuidado entre as redes de atenção. É nosso papel alertar a comunidade sobre a ocorrência dessas situações e nos posicionarmos de maneira pró-ativa, prevenindo novos casos e mostrando a esses pacientes e familiares que eles não estão sozinhos”.

Infográfico: Dados mostram o número de tentativas de suicídio e a forma (Infográfico Joseane Antunes Ascom/HSVP)